850 km de conexão interna e muitas descobertas

Uma pequena igrejinha. Tudo muito simples. Uma medalhinha da Virgem Maria entregue por uma Freira bem idosa e um Buen Camino, me fizeram chorar por três quilômetros”.

Este foi um dos momentos que mais marcou os 850 quilômetros percorridos por Walter Hugo Bracht no Caminho de Santiago de Compostela. A peregrinação iniciou na França, passando pelo norte da Espanha e seguindo até o litoral. 

No pequeno vilarejo Rabé de Las Calzadas, Castela e Leão, Espanha – depois de 285 km de caminhada, a doação, a entrega do amor sem cobrar nada em troca e a simplicidade que resumem o objetivo do caminho. Conforme Walter Hugo, antes de chegar a Rabé, o cenário era de igrejas grandes, com muito ouro. Igrejas em que era preciso pagar cerca de cinco euros para entrar. “E lá você não sentia nada. Era tudo muito frio. Quando chegamos nesta igrejinha já senti uma energia diferente. A emoção foi especial. Me tocou muito o fato delas estarem ali, entregando amor sem cobrar nada em troca. Quando recebi a medalha comecei a chorar a parei três quilômetros depois “.

O Caminho Francês é o mais procurado por milhares de pessoas de todo o mundo com o objetivo de viver uma experiência única de conhecimento interior, mudança e desapego. “Eu deixei um corpo e uma mente e voltei totalmente diferente. Voltei com o espírito renovado. Essa é a sensação que eu tenho”, explica. 

Conforme Walter, durante o caminho, cada um escolhe com o que quer se conectar. O que precisa continuar, o que quer continuar e o que não quer continuar carregando. É disso que vem a simbologia da mochila com cerca de 11 quilos e que acompanha durante toda a caminhada. Nela algumas peças de roupas, objetos de higiene pessoal, um saco de dormir, e a vontade de passar por um momento de transformação. “Essa é sua vida naquele momento. Caminhei 32 dias e em média 25 a 26km por dia em quatro ou cinco horas. Algumas coisas são deixadas pelo caminho, esvaziando e odeixando mais leve”, conta.

Durante a peregrinação, as paradas acontecem em hostel, paróquias, hotel, albergues. É hora de lavar as roupas, tratar as bolhas, cuidar das pernas, se alimentar e conhecer um novo lugar cheio de histórias. “Se preparar para um novo percurso que inicia no dia seguinte”, explica.


Um propósito

Walter Hugo é CEO do Grupo UAU e mesmo com a formação em Publicidade e Propaganda, a área da Psicologia sempre lhe despertou interesse. “Eu acabei fazendo alguns cursos sobre terapia sistêmica, constelação Familiar e fiz uma pós graduação em psicologia transpessoal,Coach”. 

Dentro deste cenário. Foi a Cabala quelhe chamou a atenção. Trata-se de uma filosofia chamadade raiz, onde são estudadas as peregrinações. São momentos em que o indivíduo se recolhe para pensar sobre a vida, o que está fazendo dela e qual a missão na terra. “Existem muitas técnicas. Tem a busca da visão através das montanhas, a vipassana que é uma meditação de dez dias isolados, ou seja, são várias formas e práticas dessas peregrinações para o encontro consigo mesmo. Eu escolhi o Caminho de Santiago de Compostela”, explica.

Imersão Cultural e Espiritual

Alemães, Portugueses, Coreanos, Italianos, Japoneses. Somente em 2017 mais de 300 mil peregrinos fizeram o Caminho que reúne pessoas do mundo inteiro e de culturas diferentes. Os dados são da Oficina de Acolhida de Peregrinos e contabiliza apenas os que foram recepcionadospela entidade. 

“É uma imersão cultural muito grande. Eu mesmo convivi muito com alemães, que é uma de minhas origens.O mundo inteiro faz esse caminho que é tombado pela Unoesco como Patrimônio da Humanidade. A gente passa recebendo o carinho das pessoas que já estão acostumadas a receber os peregrinos. O caminhos é milenar. Tem muita história contida em cada passo”.

São três fases que marcam esta experiência: antes do caminho, durante e depois. Para Walter, o que fica depois de 850 km é que o caminho continua.”O que você viveu lá não é nada mais do que um processo da sua vida e do seu cotidiano. O aprendizado é para o resto da vida”.

Conexão com a natureza

O final do inverno e início daprimavera foi a estação escolhida para percorrer o caminho. O frio ainda era intenso. “Tinha dias que iniciava a caminhada com dois graus, chuva. Só no final mesmo que foi ficando um pouco mais quente e as temperaturas chegavam perto dos oito a dez graus”.

Mesmo a temperatura baixa e a chuva não prejudicaram a vivência e conexão com a natureza e as lindas paisagens em cerca de 32 cidades diferentes e os mais de 50 povoados. Conforme Walter Hugo, o contato com a natureza é restaurador e a cada dia o peregrino se sente em um filme diferente de acordo com a região. Medieval na região de Navarraonde existem castelos e outros mais contemporâneo como Burgos. Cada dia é único, cada cenário é único. As emoções são diferentes em cada passo do caminho. “As paisagens servem como uma forma de reconexão com a natureza, com a terra. É uma forma de descarregar “.

Fim da linha

No fim do caminho, em Finisterre, é hora de deixar tudo pra trás e marcar o início de uma nova fase. O que fica é a experiência, a renovação e as bolhas nos pés depois de 800 quilômetros. “Diz a lenda que o número de bolhas nos pés durante o trajeto é o número de pecados que você está pagando. Eu tive três, mas foi uma dentro da outra então o pecado era grande (risos)”, conta.

Em Finisterra, é o momento de deixar tudo para trás. Todas as roupas e pertences que foram levados durante todo o percurso, ficam ali e são consumidos pelo fogo até virarem cinzas, o que simboliza o início de um novo momento. “No final do mundo é que se tem um novo começo”,finaliza Walter.

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